6.5.07

racionais, coletivo e aniquilação



A lua já não estava tão cheia, mas ainda tinha um certo ar de “Gotham City”, uma bola amarela por trás de nuvens negras. E veio iluminar a festança na cidade, que jorrou arte por todos os poros nesse fim de semana. Quem não se enclausurou em espaços fechados e pagos teve a chance de conferir de tudo um pouco, especialmente no centro da cidade, que estava lindo. Era gente indo e vindo por todos os pontos históricos, metrôs cheios até madrugada, com tribos de todos os cantos convivendo, até onde possível, em harmonia.
Eu adoro a ocupação do espaço público, o coletivo, o uso da cidade como forma de expressão. Sou do tipo que topa qualquer parada que tenha aglomeração humana e seja grátis, ainda que só para observar o movimento. Foram muitos os destaques da Virada Cultural, o carnaval cultural dessa cidade inviável. Nos lugares onde passei, surpresa no Pátio do Colégio, que era outra cidade ao som do dub. Muita paz, muita diversão. Em frente a Bovespa, a cena eletrônica foi democrática e surpreendeu, assim como o Ed Motta, com sua excelente música e alto astral na São João.
Mas o êxtase mesmo foi ver a Praça da Sé lotada, no maior clima de final de campeonato, com manos e minas de várias tribos esperando para ver o Racionais.
É claro que saiu confusão e eu estava bem ao lado do ponto de estopim, uma banca de revistas cujo teto foi invadido por muitos garotos com testosterona a mil. A polícia reagiu, teve correria, mas considerando que já passava das 4h30 e havia milhares de pessoas aglomeradas, o resultado era previsível. Como me disse um mano com um boné escrito Lado Leste, quando um amigo meu quase iniciou uma discussão com um cidadão bêbado: “aí, vamos ficar calmos, porque aqui só tem louco e é melhor evitar, firmeza?”. É isso aí, na babilônia, teve espaço para todo mundo.

Encontrei muitos amigos no centro, mas muita gente que eu convidei não quis ir por medo da violência (esse foi o argumento mais usado). A violência é sempre uma justificativa legítima, mesmo que seja para disfarçar o preconceito de estar em um lugar onde o acesso é irrestrito. Em um evento como esse, não é possível excluir o indesejado, seja ele o pobre, o feio ou até os playboys.
E o mundo caminha cada vez mais para a direita, para a aniquilação daquilo que não queremos ver e conviver, em geral a miséria. As pessoas podem se isolar em clubes caros, condomínios e carros blindados e perder a sensibilidade em relação ao outro. Algumas pessoas podem mesmo escolher não conviver com o diferente. É o pensamento individualista versus o coletivo.
Virar as costas para a cidade, para a exclusão é um caminho menos dolorido, mas que também endurece os sentimentos.
Curiosamente, assisti a um filme hoje que me trouxe lembranças de ontem: Os 12 trabalhos. É um filme poético, sensível e triste, porque é a verdade da nossa cidade. É um filme sobre pessoas comuns, a quem sonhar não é mais permitido. É a história de muitos meninos e meninas que estavam lá na Sé, esperando para ver o Mano Brown. E de quem eu escutei coisas como “para quê vou ficar perdendo tempo no meio de tanto preto e pobre?”. Realmente, não vale perder esse tempo. Melhor coisa é ir para o Skol Beats, pagar os R$ 100 ou ser descolado e “arrumar um convite”. E continuar na sua bolha. Vendo as mesmas coisas, falando com as mesmas pessoas, escutando os mesmos sons. Como dizia o Cazuza: “vamos pedir piedade para essa gente”.

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