7.11.07

Vida no asfalto cor de sangue

Não se trata do texto inacabado, que deixamos à sombra porque não encontramos palavras adequadas ao nosso pensamento. Não se trata da pilha de coisas que se acumulam à espera do dia em que alguém as organize. Não se trata do amor mal-resolvido apenas, que não tivemos coragem de tirar a limpo. Não se trata do tanto de tarefas à nossa espera na mesa do trabalho, de coisas extraviadas a esmo e para sempre, da preguiça de escovar os dentes, de contatar aquele amigo distante. Das discussões sem objetivo em rodas conhecidas, da repetição enfadante do cotidiano. A vida trata, sobretudo, do imponderável. Do trânsito no horário pouco provável, da pressa que vem em seguida, do atraso inevitável. Do estrondo no fim de tarde da rua, do choque entre dois metais e sangue no asfalto. O imprevisto. Não é possível antecipar a vida. Ainda que se tenha tudo programado, organizado, perfeitamente estabelecido. Ela vem, faca em punho e muda para sempre todo o percurso. Sangue no asfalto.

“Fazer isto, depois aquilo. A suburbana idéia de que há um tempo para tudo e que nos devemos resumir. Está na altura de, está na altura de. Como se cada passo fosse fundamental para o seguinte. Como se não pudesse haver outro caminho.”

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